segunda-feira, 2 de julho de 2012


Memórias do meu MICO

- Um gato de Vidago

Era um Setembro quente. Estávamos em 2006. Como sempre, escolho aquela fase do ano para revigorar forças na vila termal de Vidago. Aproveito para o contacto com a natureza e tentar não me desprender das minhas raízes rurais. O calor abrasador de Agosto já passou, a agitação sazonal abrandou e aquele lugar é muito apelativo ao descanso. Nesta época as árvores, frondosas e generosas, oferecem-nos o prazer da sua sombra e os seus abundantes frutos. Enfim, um conjunto de factores que convergem no sentido de qualquer ser humano ali se sentir bem nesta altura do ano.

Logo no dia em que cheguei, o miar desesperado e cansado a indiciar um juvenil gato, despertou a minha atenção dada a persistência dos seus apelos. O som provinha de um enorme emaranhado de videiras bravas que se desenvolveram a uns cinquenta metros, num terreno que envolve uma simples e velha casita que herdei dos meus pais. Como ia para descansar dispus-me a neutralizar o miar do gato. De vez em quando aproximava-me do lugar de onde vinham os seus apelos. Talvez com receio, o felídeo calava-se dificultando, deste modo, que eu o retirasse daquele sítio. Ficava toda a ideia que ali nascera uma ninhada de gatos e, pelo menos um deles, passava fome. À noite a minha mulher, admitindo que a mãe não pudesse satisfazer todas as carências alimentares da prole colocou junto ao local uma tigela com leite. Porém, horas a fio, o gato continuava a miar. Ao outro dia constatámos que o recipiente do leite estava intacto. O felino continuava a miar, mas cada vez de forma menos sonora e mais debilitada. Estando a tigela do leite tal como foi deixada não foi difícil concluir que a mãe teria morrido num qualquer acidente e, provavelmente, os irmãos fisicamente mais debilitados não teriam resistido à implacável morte por desnutrição.

Mas o que eu, naquela altura, queria mesmo era deixar de ouvir o miar desesperado do gato. Lembrei-me, então, de imitar o seu miar e, devagarinho, ir-me aproximando do ninho de onde saíam as suas súplicas. Qual o meu espanto quando vejo o gatito emergir do emaranhado de ervas e bacelo bravo caminhando, com muita dificuldade, na minha direcção. Peguei-o nas mãos horrorizado com o seu aspecto: pouco maior que um telemóvel, esquelético e andrajoso! Subi as escadas e, com ar de dó, mostrei à minha mulher o debilitado felídio. A Eduarda, tentando amenizar o sofrimento do miquito, foi-lhe despejando umas colheritas de leite magro (era o que havia lá em casa) pela garganta abaixo. Mas ele não se aguentava de pé. Resolvemos, então, comprar na mercearia mais próxima um pacote de leite mais nutritivo e providenciar um biberão, já em desuso, de um neto da minha irmã Fátima. Como eu recordo a beleza desses momentos! Foi a partir daqui que o Mico começou a libertar-se de uma morte certa e angustiante.

Durante aqueles dias em que por lá estivemos tratámo-lo com os cuidados necessários a fim de que o pudéssemos deixar à sua sorte, mas numa fase de menor dependência, umas semanas depois.

Eu não tinha a menor experiência do que é isso de partilhar a minha vivência com um gato. Vivo com a Eduarda num apartamento em Ermesinde. Ambos decidimos trazê-lo para a nossa morada permanente e levar a cabo essa experiência. Após a sempre aconselhável e indispensável visita à clínica veterinária para os fins convenientes, o Mico passou a partilhar connosco a mesma habitação e ambiente familiar. Já lá vão, mais de cinco anos!

O que eu aprendi com ele! Ensinou-me a respeitar, muito mais, os gatos e outros animais que não são meus. Hoje, contrariamente ao que acontecia, não consigo ser indiferente à presença deles. Eu não imaginava a ternura que se sente ao ver um gato mamar num simples trapo como se espremesse a mamucha da mãe! Observar o espreguiçar de um gato é um belo quadro! Que delicioso é vê-lo brincar com qualquer objecto usando as patitas como uma criança usa os pés quando joga a bola ou meneando a cabecita em gestos engraçadíssimos, quando com ele brincamos!

Passa infinitos minutos a tratar da sua muito peculiar higiene, lambendo toda a região do corpo que as suas boquita e língua conseguem atingir. Que satisfação sinto ao ver com que sofreguidão inspira o ar da manhã quando, ao dealbar do dia, lhe abro uma nesga da vidraça. Ao observar estes seus rotineiros comportamentos vou-me lembrando da necessidade de lhe ir providenciando a indispensável erva fresquinha de que ele tanto gosta e tão importante se torna para que possa expelir todo aquele pelo diariamente ingerido.

As suas deslocações fora da residência habitual são esporádicas. Costumamos levá-lo para Vidago (terra da sua naturalidade) em férias, ou simplesmente ao fim de semana. No seu habitáculo de transporte ele viaja sereno durante um percurso de um pouco mais de uma hora. Não abdica, nunca, de uma micção logo que entra para a sua casota acomodada no banco traseiro da viatura. Logo que chega ao local onde nasceu e se lhe abre a porta do automóvel o Mico é outro: em grandes correrias efectua o reconhecimento da zona periférica da casa saltando alegremente como uma gazela na selva africana! No meio rural adora o contacto com a natureza, os seus sons e odores. Nesse ambiente o Mico desperta muito cedo e não se cala enquanto não lhe abrimos a porta da rua (ao contrário do que acontece no seu, mais habitual, ambiente urbano). Logo de manhã, é astuto na arte de pedir que lhe façam as vontades: com o pescoço acaricia, ronronando, as pernas dos donos. Quando se apanha na rua senta-se uns momentos no cimo das escadas como que a fazer o levantamento geográfico do local onde, lá para a noitinha, tem necessidade de voltar. Depois atravessa umas centenas de metros de campo agrícola, no sentido de um pequeno rio que banha a propriedade. Então, até que escureça bem, nunca ninguém mais vê o Mico. Quando a noite já caiu há muito e o estômago vazio começa a desconfortá-lo, aparece junto às escadas. Pouco habituado a conviver com pessoas estranhas, tenta certificar-se que os seus donos não têm visitas. Depois, em grande correria, sobe as escadas, com a patita direita desencosta a porta entreaberta, entra, roça-se nas pernas dos donos e dirige-se ao comedouro que esvazia com grande sofreguidão.

Nunca o Mico deixou de regressar a casa ainda que às vezes o faça tardiamente provocando, não raramente, um regresso mais tardio dos seus donos à residência urbana de Ermesinde.

Na sua mais habitual residência o Mico tem comportamentos diametralmente opostos aos da sua vivência no meio rural. Nunca manifesta qualquer especial apetência para ir ao exterior. Quando muito, se a porta do apartamento se encontra entreaberta, desce os primeiros degraus da escada do condomínio. Mas regressa de imediato se pressente que a porta se lhe pode fechar, ou se vislumbra que algum estranho deambula pelas escadas! Se ouve um qualquer toque à campainha o Mico esconde-se de imediato apenas saindo do seu esconderijo quando se apercebe que nenhum estranho entrou em casa, ou se entrou já abandonou o seu lar.

O meu Mico faz parte indissociável das vidas humanas cá de casa. Respira o mesmo oxigénio que nós frequentando todos os compartimentos do apartamento. Gosta de ir à cozinha nas horas das refeições esperando sempre que os donos partilhem com ele algo do que estão a comer. Não sei bem porquê, mas adora hortaliça, especialmente grelos! Porém, é incapaz de roubar da banca da loiça (seja o que for que ali se encontre). No Verão toma, frequentemente, banho na única banheira lá de casa onde os donos lhe disponibilizam o equipamento exclusivo para essa higiénica tarefa. Acabou por resignar-se a aceitar, com naturalidade, essa saudável tarefa que lhe é ministrada e pouco própria de felídeos. Após o banho a dona enrola-o na sua exclusiva toalha e enxuga-o. Depois coloca-o dentro da alcofa, ao sol, na soalheira marquise. Ali, numa árdua e infindável tarefa, ele vai acabando de secar-se. Por fim, deita-se em pose de relaxe. Do seu corpo exala, então, o cheirinho do seu champô e o seu pelo aveludado torna-se uma tentação para umas carícias dos seus donos.

Como todos os gatos, recebe mais que o que dá, mas apenas aparentemente. Gosta de ser independente e aprecia que não o incomodem, especialmente, quando come ou dorme. Também é exigente no asseio que, cuidadosa e diariamente, lhe prestamos. Quando entende que a areia do seu caixote sanitário expirou o prazo de validade, disso nos dá conta revolvendo a mesma em tempo mais longo que o habitual. Porém, isto é uma rotina que, quando se gosta de animais, se cumpre com prazer.

Nos olhos cor de prata do meu gatito existe uma luz profunda e suave, às vezes melancólica, que faz com que o meu coração se compadeça com todos os indefesos animais que não tiveram a sua sorte. Nesses momentos em que o observo interrogo-me das razões que podem levar gente insensível aos maus-tratos de tantos seres, inclusive ao seu abandono, se tiveram a docilidade e a lealdade da sua companhia, às vezes, por tanto tempo!

O Mico está, desde bebé, castrado. Como come quando e quanto quer e o exercício físico é insignificante engordou muito. Pesa seis quilos e meio o que é um exagero. Habituou-se a dormir no fundo da nossa cama. No Inverno faz um túnel no cobertor que, para o efeito, colocamos aos nossos pés e ali fica. Toda a noite, sem se mexer e nem sequer pestanejar! Impreterivelmente, ao amanhecer põe-se a pé à mesma hora que eu. Ronronando e de cauda hirta e içada, acompanha-me, afagando as minhas calças, até à cozinha onde bem sabe que lhe sirvo a primeira refeição do dia.

Depois deixamo-lo só mas confortado até que o fim do dia chegue. Espera-nos ansioso. Mas o nosso anseio em revê-lo não é menor.

Vendo bem as coisas (e porque animais somos todos nós) o que eu e a minha mulher fazemos não é mais que tentar aproveitar a oportunidade que ele nos deu de todos sermos felizes.

O nosso muito obrigado Mico

Floripo Salvador
Junho 2012


1 comentário:

amd disse...

Caro Salvador! Li com muito agrado as suas 'Memórias de Vidago'. Reparei amiúde que, ao narrar histórias, o relato adquiria outro brilho quando o tinham como personagem.
Aposto que muitas não puderam ser desenvolvidas e outras ficaram por escrever.
Ao ler isto continuo a achar que há muito por contar...
Tó Rodrigues