domingo, 14 de dezembro de 2014

CATÁSTROFE NA PONTE DE OURA - 1964/2014

- Foi há meio século!

No próximo dia 20 de Dezembro, e por volta das 18 horas, completam-se 50 anos após o fatídico acidente rodoviário que vitimou sete pessoas, quatro das quais, naturais de Vidago.

Era véspera de Natal, estávamos em 1964. A partir do início desse ano começavam a regressar ao Continente os primeiros contingentes militares que haviam partido em 1961 e 1962, para a Guerra Colonial, em Angola.

A Vidago, havia recentemente chegado o Aníbal Almeida, um filho da terra. A humilde e simples família do simpático e discreto rapaz, preparava-se para festejar um Natal tranquilo e feliz, na companhia do seu desejado e regressado familiar. Porém, estava destinada à vila, naquele ano, uma quadra natalícia horribilis. Esfumou-se a festa preparada no seio dos seus ao ente querido que, lá longe, em terras de África e durante dois anos, sofrera a separação familiar e a incerteza do regresso. Porém, a paz, a harmonia e o amor esperados dariam, assim, lugar à inquietação, à angústia e à dor.

Mas a vila foi também atingida pelo desaparecimento de mais três pessoas naturais e residentes em Vidago: José Joaquim Ferreira – José Calceteiro; José Gertrudes – José Lindinho e Maria Alice Sousa Teixeira, de 7 anos, cujos pais eram comerciantes na localidade.

A instituição futebolística da terra, designada por Vidago Futebol Clube, tinha naquele triste Domingo, aprazado um jogo de futebol com a sua congénere de Vila Pouca de Aguiar – o Sport Club Vila Pouca. Alguma, saudável, rivalidade entre os dois clubes - que ainda hoje persiste - terá suscitado considerável mobilização dos apaniguados vidaguenses, visando o sempre útil apoio humano à equipa local.

Naquele tempo, o parque automóvel da localidade era escasso. Então, estes eventos originavam, normalmente, o aluguer de um ou mais autocarros que transportavam, festivamente, gente de todas as idades, que aliava ao apoio da sua equipa, a possibilidade de desfrutar de um alegre passeio e saudável convívio.

Naquela fatídica tarde de Domingo, mais uma normal contenda desportiva chegava ao fim, entre os dois clubes. As pessoas ocuparam os respectivos lugares, no grande autocarro vermelho e amarelo CI-85-37, marca Scania, propriedade da Auto Viação do Tâmega e conduzido por Germano Carvalho Baptista, de 32 anos, natural de Vila Verde da Raia que havia de perecer no brutal acidente.

Estado em que ficou o autocarro da Auto Viação do Tâmega
A viagem de regresso iniciou-se e, na mente dos aproximadamente, cinquenta passageiros, não pairava a menor ideia do que viria a acontecer-lhes, mais ou menos, trinta minutos depois. Após a passagem por Sabroso, surge o ponto mais elevado do Reigás e ali começa a acentuada descida de meia dúzia de quilómetros, até Vidago. Depois daquele local, alegadamente, o motorista ter-se-á apercebido de uma anomalia no sistema de travagem. Não escondeu aos passageiros a sua angústia, tendo contagiado todos, levando-lhes o terror por ele sentido. Iniciou-se uma corrida louca e vertiginosa pelas curvas sinuosas da então mais estreita Estrada Nacional 2. Uma gritaria bem própria de um filme de terror, fazia ouvir-se no interior do autocarro, agudizando-se ao aproximar de cada curva mais fechada. A perspectiva do desenlace iminente pairava no cérebro enlouquecido de todos. Depois de uma boa dúzia de curvas feitas e desfeitas, às vezes com os grandes rodados a descolarem do chão, chegou, por fim, o dramático momento.

Muito próximo de uma passagem desnivelada da CP, quase ao entrar em Oura, o autocarro perdeu, definitivamente, o controlo. Embateu, estrondosamente, numa furgoneta (HI-54-88) de Santa Senhorinha – Cabeceiras de Basto, conduzida por António de Oliveira Neiva, de 24 anos, que, em sentido contrário, circulava, transportando hortaliça. Ao lado do motorista seguia seu pai, Joaquim Augusto Neiva de 57 anos que, também, faleceu no acidente. Em consequência da colisão, o autocarro precipitou-se para a linha dos caminhos-de-ferro, ficando suspenso sobre os carris e numa posição atravessada. Porém, enalteça-se uma sorte incrível, no meio de tão enorme desgraça. É que, minutos depois, estava prevista a passagem naquele local, de uma composição ferroviária procedente da Régua.

Estado em que ficou a furgoneta de Joaquim Augusto Neiva
Da amálgama de ferros retorcidos do autocarro, começaram então a ouvir-se gritos lancinantes de dor e também de terror da maioria dos sobreviventes. Sete pessoas (quatro de Vidago), o motorista do autocarro, natural de Vila Verde da Raia, Chaves e os dois ocupantes da furgoneta, também interveniente no acidente, pereceram de imediato.

Relativamente aos quatro falecidos da vila, a que já atrás fiz referência, evoco os nomes de José Ferreira (José Calceteiro), José Gertrudes (José Lindinho), Aníbal Santos de Almeida e Maria Alice Sousa Teixeira. O pai desta e também seu irmão, respectivamente Secundino Teixeira e José Manuel Teixeira, viajavam igualmente no fatídico autocarro.

Os restantes ocupantes do autocarro, quase todos feridos e alguns com mazelas que os marcariam para o resto das suas vidas, começaram então a ser transportados para o hospital mais próximo. O silvar das sirenes das ambulâncias arrepiava, tantas eram as viaturas envolvidas nos socorros e tão grande era a sua azáfama. Viaturas particulares colaboraram como puderam. Alguns de nós recordam, ainda, como Ilídio Covas atravessou, várias vezes, a vila a uma velocidade estonteante, a caminho do Hospital de Chaves. Mas outras pessoas com viaturas próprias ou cedidas colaboraram, estoicamente, como puderam!

Familiares e amigos dos acidentados, acorreram ao local, angustiados e desnorteados com a incerteza do estado físico dos seus. O desencarceramento foi trabalho duradouro e difícil. Abnegadamente, bombeiros e populares, num labirinto de braços, fumo, chapa e ferros retorcidos, lá iam ajudando como podiam no socorro aos sinistrados.

Cabe, aqui, recordar uma cena invulgar constatada no interior do autocarro e presenciada por João Salvador Varandas, natural de Oura. João, Desidério e Albano terão sido as primeiras pessoas a chegar ao local do sinistro. Em depoimento para esta crónica, João, descreveu a forma como encontrou uma criança (António, filho de Alda e António Almeida). O menino comia, serenamente, um pão com marmelada, naquela amálgama de destroços. Olhando para João Varandas suplicou-lhe: - “Maeco” tira-me daqui!... A criança (agora a viver nos USA) terá confundido o João Varandas com um filho de Abel e Ana Malhadas, de Vidago.

Comunicação social, escrita e falada, oriunda de todo o país, foi chegando a Vidago, naquela noite escura e gelada de inverno. Refira-se que a televisão, naquele tempo, não era ainda visível na localidade. Jornalistas fotografavam e entrevistavam familiares de sinistrados que, desesperadamente, choravam a triste sina dos seus feridos e, nalguns casos, dos seus mortos. Homens, mulheres e crianças menos fustigados pela violência do acidente espalhavam-se pelos cantos das suas humildes casas, com ar atordoado e incrédulo, pelo que acontecera horas antes. Pensos de várias dimensões e ainda ensanguentados, seguros com cruzes de adesivo por todo o corpo, conferiam um ambiente de dor e angústia, em vetustos, pobres, mas honrados lares, onde alguns sinistrados recebiam o conforto, possível, dos amigos e conterrâneos.

Já bem pela noite dentro e com a geada a começar a cair, grupos de pessoas, ainda mal refeitos do que acontecera, faziam os comentários de circunstância. Rara era a família que não estivesse directa ou indirectamente ligada a alguém interveniente na catástrofe. Por isso, a tristeza a todos tocava. Não mais podemos esquecer o rosto enrugado, frio e tenso de alguns homens que, ali parados e atentos ao mais ínfimo pormenor da conversa, se protegiam do frio daquela tenebrosa noite, envolvidos nas velhas e coçadas samarras. A sua presença reflectia, também, a solidariedade bem peculiar, em circunstâncias difíceis, das pessoas que habitam pequenas localidades!

Naquele tempo exerciam medicina em Vidago os ilustre médicos, João Canavarro e José Manuel Abreu. Com os precários meios que certamente dispunham face a tão grande catástrofe providenciaram de forma ética e abnegada, os primeiros socorros nos respectivos consultórios, a duas dezenas de feridos, encaminhando os casos mais delicados para o Hospital de Chaves. Casava-se naquele dia uma filha de Camilo Otero (Alzira) para cuja cerimónia havia sido convidada a família do Dr. João Canavarro. Mal teve conhecimento da tragédia, o médico regressou imediatamente ao seu consultório onde, com a preciosa ajuda da sua eterna empregada Ondina (na altura ainda solteira), suturou, na medida das possibilidades logísticas, os doentes que se espalhavam desordenadamente por vários compartimentos da sua habitação. A este propósito e em depoimento ao autor destas letras, Berta Canavarro e sua filha (a médica, Adelaide Canavarro) recordaram o ambiente de consternação e sofrimento evidenciados pelos sinistrados que, em sua casa, aguardavam o socorro possível, naquelas precárias condições. Consta que o Dr. José Manuel Abreu estava ausente naquele dia, mas terá chegado a tempo de prestar importante ajuda ao colega de ofício.

Nessa noite, e após haver dado a assistência que lhe foi possível no seu improvisado estabelecimento hospitalar, em Vidago, o médico João Canavarro seguiu para o Hospital de Chaves, coadjuvando os Drs. Arnaldo Videira, Augusto Fernandes Carneiro, Cipriano Costa, Júlio Morais Caldas, Raimundo de Oliveira e Ramiro Teles Grilo em várias intervenções cirúrgicas que viriam a decorrer ao longo da noite.

Uma nota curiosa prende-se com o facto de Ondina (empregada do Dr. João Canavarro) ser, nesse tempo, ainda namorada de João Portelinha que também havia acompanhado a equipa de futebol utilizando o autocarro de má memória. Desesperada, a pobre rapariga ia, aflitivamente, perguntando a todos os sinistrados pelo João. Como a resposta fosse invariavelmente evasiva, chegou a temer que ele estivesse entre os que haviam perecido. Porém, estava-lhe reservada uma tranquilizante notícia: o João Portelinha resolvera regressar de comboio em vez de reutilizar o autocarro. O destino é mesmo assim: frio e mais que imprevisível!

Também Francisco Carneiro e seu filho, Francisco Artur escaparam àquele doloroso transe. A então empregada de sempre daquela família, Maria, por feliz descuido, terá atrasado o almoço. Como consequência, pai e filho não se aprontaram a tempo de embarcar no fatídico autocarro, facto que lhes pode ter obviado graves problemas físicos, ou mesmo o pior. Deus escreve direito por linhas tortas!

Ainda tenho na memória uma imagem que guardarei para sempre, junto à Estrada Nacional e ao fundo da rua da Ermida: António Parada – popularmente conhecido por Toninho Manco, permitira que seu filho (Tó) também tivesse ido ao futebol no autocarro. Não estando perfeitamente conhecedor das verdadeiras consequências pessoais da catástrofe e temendo o pior, fazia infinitos círculos com o seu triciclo, ao tempo ainda sem motor, gritando de forma lancinante, criando à sua volta um ambiente de grande consternação.

Joaquim Aguiar, então empregado comercial em Vidago, foi uma das pessoas intervenientes na tenebrosa odisseia. Num depoimento que concedeu ao autor desta crónica recordou detalhes empolgantes e ao mesmo tempo alucinantes da catástrofe. Contou que o motorista do autocarro, a partir do momento em que se apercebeu do drama que a todos esperava, se pôs de pé com as mãos ferreamente agarradas ao volante. Desesperado, ia gritando para Júlio de Sousa (Júlio da CHENOP) que aconselhasse os restantes passageiros a segurarem-se bem, pois os travões tinham rebentado! De preferência, que se encostassem, o mais possível, à traseira da viatura! Ao mesmo tempo, aterrorizado, o infeliz motorista, Germano Carvalho Batista, ia gritando: – Agarrem-se que estou sem travões! E, já quase no fim, em pânico: – Agarrem-se todos que estamos perdidos! Consta que alguns se amarraram de forma aterradora aos respectivos bancos. Imagine-se a consternação vivida por todos! Cada curva desfeita provocava um arrepiante brado, por parte dos passageiros. Nas suas mentes ia passando a ideia do que estaria para acontecer na curva seguinte. Joaquim Aguiar ter-se-á agarrado de forma tão aflitiva, que se ferira gravemente nas mãos. Só tem memória do ocorrido até ao momento em que se deu o embate. Depois, perderia os sentidos apenas recuperados já no consultório médico, em Vidago.

Albano Salgado
Um outro facto relevante a evidenciar prende-se com o impedimento da envolvência do comboio, no sinistro. Àquela hora, aproximava-se do local e com destino a Chaves, uma composição ferroviária da Linha do Corgo. Albano Rodrigues Salgado de vinte anos, Desidério Caetano Leite, de vinte e sete, então empregado da VM&PS, e ainda José Maria Justo de vinte e dois, após presenciarem o acontecimento, logo admitiram a iminência de uma catástrofe de proporções incalculáveis. Assim, sob o manto espesso e frio da noite, as três abnegadas criaturas foram ao encontro do comboio, fazendo sinais aflitivos com o intuito de fazerem parar a composição. Como o não conseguissem, a muito custo, um deles (Albano Salgado) guindou-se para dentro de uma carruagem, avisou o revisor do sucedido e o comboio parou, milagrosamente, quando o alarme foi accionado.


Muita gente envolvida neste aparatoso e inesquecível acidente foi resistindo à lei da vida, durante largos anos, ainda que com eternas mazelas. Foram disso exemplo Alberto Pinto Carvalho, Alda Brás Portelinha, Ana Maria (Farrica), António Araújo (Ruço), António Guilherme Brás, António dos Santos Parada, Cândido Brás Portelinha, Firmino Correia – que ao tempo era Director do V.F.C., juntamente com Júlio de Sousa - Fernando Ferreira, Inácio da Silva, Joaquim Aguiar, Joaquim Moura, José Manuel Teixeira, Júlio Sousa (Carroças), Maria Augusta Portelinha, Maria Clara Portelinha, Rui Fernando Portelinha, Sebastião Aguiar e Secundino Teixeira, entre outros. Uns quantos carregaram até ao fim das suas vidas o sofrimento das mazelas físicas causadas pela violência do sinistro. Quem não se lembra de António Almeida (António Andorinha), e da debilidade física em que o acidente o deixou para sempre! Também Celeste Pereira Dias (esposa de Alberto Pinto), arrastou a mesma cruz até ao fim dos seus dias!

Mas se a maioria dos sinistrados acabou por recuperar, fisicamente, ao longo dos anos da enfermidade provocada pela catástrofe, ainda existem pessoas que dificilmente se libertarão do trauma psicológico e de alguma incapacidade sofrida. Felizmente alguns, e obviamente cada vez menos, ainda por cá estão para testemunhar o sucedido.

Resta evocar alguns nomes que compunham, naquela época, o plantel do V. F. Clube e na base do qual se constituiu a equipa que, em Vila Pouca de Aguiar, disputou um desafio de futebol. Com resultado desfavorável de (2-1) para os vidaguenses – o facto menos relevante – e cujas consequências para os conterrâneos que os apoiaram, ficarão triste e eternamente gravadas na memória de todos, recordemos os seguintes nomes: António Almeida (Preto); António Almeida (Tó Andorinha); Augusto (Toscas); Barico; Boticas; Cardoso; Fausto Aguiar; Ilídio; Jorge Rôxo; Malano; Manuel Almeida (Maneca); Mário (Cascarrôlho); Mário Chaves; Óscar e Zézinho. Fernando Lino, natural de Vassal e na altura a residir em Chaves era o treinador.

Ao fim da tarde de 22 de Dezembro de 1964 realizaram-se em Vidago os funerais de cinco das sete pessoas falecidas na catástrofe. Os corpos foram transportados desde Chaves pelos Bombeiros de Salvação Pública daquela cidade. Um enorme cortejo fúnebre acompanhou, sentidamente, os corpos das vítimas. Entre outras figuras viam-se o vice-Presidente da Câmara de Chaves, Dr. Mário Gomes Pereira e os vereadores da autarquia flaviense, tenente Palmeira e Eng. Arménio Rodrigues. Também o então Presidente da Câmara de Boticas, Albino de Oliveira e o Administrador da Vidago Melgaço & Pedras Salgadas, Dr. João António Serôdio estiveram presentes. Os reverendos João Costa e Adolfo de Magalhães, na altura pároco de Vidago, foram os responsáveis pelas cerimónias religiosas.

Cinquenta anos depois, tanta coisa mudou: constatam-se profundas alterações aos hábitos dos cidadãos locais: o parque automóvel é mais vasto e já não se efectuam excursões, como dantes, para viagens tão curtas; também a via-férrea a que aqui se alude foi extinta desde 1990. Mas, pior que tudo isso, já não comunga connosco destas recordações tanta gente à qual o implacável calendário da vida lhe pôs fim!

Texto - Floripo Salvador
Imagens - Júlio Silva
Dezembro 2014

Um abraço e até breve...

Sem comentários: